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Minha experiência no Foundry Photojournalism Workshop

Obelisco, Plaza de la Republica - Buenos Aires

Recentemente voltei de um workshop realizado em Buenos Aires, organizado pelo Foundry Photojournalism Workshop. E a existência desse blog tem alguma relação com isso. No final, creio que ficará um pouco mais claro a razão de sua existência.

Este workshop é realizado uma vez por ano, em algum lugar no mundo. Ele já foi realizado no México, na Índia e Istambul. Em 2012 acontecerá no Vietnã. Ele reúne grandes nomes do fotojornalismo internacional que se reúnem durante uma semana para ministrarem um curso a um grupo de não mais que 10 alunos, o que é um privilégio. No Foundry, você encontra fotojornalistas consagrados, referências de grandes agências, fotorjornalistas conhecidos de grandes jornais, além de outras figuras como a diretora do curso de fotojornalismo do ICP, por exemplo, e fotorjornalistas indepedentes.

Os estudantes também vêm de todas as partes do mundo, em busca da formação e do contato com gente importante no cenário do fotojornalismo internacional, que eventualmente pode lhes abrir portas. E isso de fato acaba acontecendo.

O trabalho, no entanto, é brutal. E a parte social do evento fica prejudicada por conta disso. Pois, ao final da semana, todos devem ter seus trabalhos finalizados e entregues para seus instrutores, que por sua vez os repassam para a direção do Foundry para a grande exibição na noite de sábado. Todos os trabalhos são apresentados impreterivelmente das 18 às 21hs. Três horas de puro fotojornalismo dos mais diferentes estilos, temas, olhares e tradições.

O workshop que optei por fazer no Foundry foi o “Web documentary for photojournalists: storytelling for an online audience“. O curso foi ministrado por Henrik Kastenskov, integrante do coletivo multimídia dinamarquês Bombay Flying Club. Duas semanas antes de curso, recebemos um email aterrorizador, onde Henrik dizia que esse era o curso mais difícil do Foundry, e que era para nos prepararmos para longas jornadas de trabalho e noites mal dormidas. Pensei que fosse exagero, mas na verdade foi um pouco pior que isso.

Minha turma era formada por mais dois brasileiros, Cláudio Fonseca e Gabriel Pimenta, ambos ótimos fotógrafos. Gabriel, também é produtor musical, e entende absolutamente tudo de som. Havia o trio polonês Lukasz Sokol, Leszek Gora e a Agata Pietron (de quem virei fã por conta de sua maravilhosa fotografia). Zeyad Gohary, egípcio, vinha ainda impactado pela Revolução da Praça Tahrir, e pelo que presenciou ali ao fotografar o evento em momentos críticos. Victoria Gesualdi, que trabalha como fotojornalista em Buenos Aires, era a argentina do grupo. Ótima fotógrafa, e muito solícita em nos fazer indicações de possíveis pautas ou onde e como encontrar o que precisávamos. Por fim, havia Elie Gardner, norte-americana radicada no Peru. Apesar de muito jovem é bastante experiente, já conhecia as pedras do caminho, e sempre esteve vários passos a frente de alguns de nós.

O desafio colocado por Henrik para a turma foi o de buscar em Buenos Aires uma estória pessoal, uma narrativa de uma pessoa com a qual uma audiência pudesse se conectar – e que tivesse cerca de 2 minutos!

Como não sou nem fotógrafo de formação, e menos ainda jornalista, tive sérias dificuldades em realizar o trabalho. Houve momentos em que pensei que não conseguiria. No entanto, tudo deu certo no final, e muito melhor do que esperava para uma primeira experiência junto a um grupo de altíssimo nível.

Os dois primeiros dias foram de aula; discutiu-se muito o modelo atual de jornalismo, o impacto da internet, as alternativas que estão surgindo para o fotojornalsmo, os fundamentos da produção multimídia, e discutimos algumas produções apresentadas por Henrik.

Quarta e quinta eram os dias para fotografar, filmar e gravar o som; sexta, o dia da edição, e sabado, finalização e discussão interna, antes da entrega dos trabalhos para a exibição.

O meu segredo, sobretudo por estrar fazendo algo que nunca tinha feito antes, trabalhando só, num outro país, foi o de esquecer minhas questões pessoais, e colocar na cabeça que o importante era realizar o trabalho. Não importam recusas, desencontros, mal-entendidos, nada pode abalar fatalmente sua determinação de chegar ao fim do dia com algum avanço importante em relação a sua estória. Persistência é uma parte fundamental do trabalho jornalístico, e está longe de ser uma palavra vazia. E embora meu trabalho tenha sido sobre um tema um tanto trivial, fiquei contente por ter conseguido encontrar a estória e ter chegado a algum lugar com ela.

Ao fim e ao cabo, quase todos tiveram grandes dificuldades. Evidentemente fiquei impressionado em como Zeyad e o trio polonês conseguiram superar a barreira linguística. Porque se depender das minhas habilidades linguísticas, no Egito ou na Polônia, eu sequer conseguiria comprar uma garrafa de água mineral.

Apesar dos problemas inerentes ao trabalho multimídia, sobretudo diante da necessidade de fazer a edição, do tratamento da imagem e som e outros detalhes, todos os trabalhos foram ótimos. Na verdade, a turma como um todo fez um grande impacto no evento, por conta da qualidade do trabalho e pelo efeito que som e imagem juntas provocam.

Cláudio fez um trabalho sobre um morador de rua. Sua fotografia impressionou muita gente. Gabriel fez um trabalho sobre um músico argentino. O trio polonês fez um trabalho sobre uma dançarina de Tango, muito elaborado e com uma fotografia irretocável; Zeyad fez um sofisticado e elegante retrato de um taxista de Buenos Aires; Victoria fez um trabalho com a pegada argentina, com crítica social, enfrentado o problema habitacional em Buenos Aires, algo que me agrada muito. É um trabalho que usa depoimentos gravados em uma pesquisa mais longa e belíssimas fotografias em médio-formato; por fim, o trabalho G E N I A L da Elie. SEM PALAVRAS. Intensamente aplaudido, e o mais comentado trabalho da noite.

Assim que os autores disponibilizarem seus trabalhos eu os postarei aqui para que possam ver.

Em outra oportunidade também comentarei em detalhes sobre como foi o meu trabalho, as dificuldades, os problemas, e outros aspectos.

Por ora, acho que agora dá para entender algo sobre a existência desse blog. Há muita coisa sendo produzida, e muito informação circulando. Por isso, gostaria de ter uma espaço específico para depositar tudo isso num lugar só, ao invés de ficar rebsucando na internet ou fazendo listas intermináveis de favoritos.

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About Carlos Henrique R. de Siqueira

sociólogo e historiador, com interesses em fotografia documental, fotojornalismo e produção multimídia. sociologist and historian interested in documentary photography, photojournalism and multimedia.

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